Just another relato no blog

por M. S. Costa

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Livrei-me das amarras do sistema escravizante. “Rápido, rápido, rápido.” Não, não vou. “Veja como os outros o fazem.” De fato, vejo-me bem; aos outros, ando cega. “Compita, compete a ti que faça o que um adulto deve fazer e competir. Inocência é para os fracos.”  Inclusive, hoje já se aplica a máxima a crianças que devem crescer e se tornar uma figura que a alguém pode parecer um adulto miniaturizado. “Vamos, vamos.” Sim, eu sei, tudo está em movimento. “Acompanhe para que possa pagar suas contas. Não seja como um vagabundo qualquer.”

Hoje, não segui por teus passos, segui pelos meus e percebi que cambaleava e ainda aprendia a ter um ritmo. Já não sabia que tinha um, pois seguia como todos e gostava de não ter que pensar, pois na minha cabeça cabiam túneis de imagens dispersas e confusas. Gostava de não ter uma cadência própria, pois de outro modo não sobreviveria: achava o mundo bem rápido. Devo confessar que quase acreditei quando me disseram retardada por não falar. Quem sabe se fôssemos mais íntimos, então pudesse discursar e falar tanto a ponto de irritar? Nunca nem fomos assim tão próximos. Acho mesmo às vezes que a minha doença fez-me agarrar-me mais a rompimentos com o que queriam que eu fosse. Até que me curei, por mais temporariamente que fosse, e enxerguei, enfim, o que vocês não podiam.

Disto-me como se não fosse como tu, querida sociedade. Você que me fez, eu que te fiz, mas me digo entidade distante. Por quê? Acho que berrava quando não devia e calava-me quando todos, no fundo, berravam seus silêncios mórbidos. Nasci com uma dessas novidades na patologia mental, tão recentemente exploradas, dado que o mundo tem bem dizer uns milênios e contam-se apenas décadas do desenvolvimento científico dessa nova compreensão. Queria que vocês vissem o que eu vejo e é por isso que lhes escrevo agora. Por baixo de seus mitos sobre mim, fico escondido como que desaparecido e passo despercebido quando me veem, porque o que vocês enxergam é o que não sou. Acho que tem medo de mim quando lhes digo minhas grosserias e quebro coisas. Gostaria que me perdoassem como devo perdoá-los. Gostaria de me perdoar.

Hoje, os sinos tocam ao longe e a guerra cessou. Fizemos um acordo de paz, minhas imagens mentais e eu. Queria que soubessem que sigo lentamente, que assim pretendo permanecer e devo terminar a caminhada pelo túnel que se formou aqui dentro, o que ninguém pode fazer por outro, abundante é a interioridade da situação.

***

Em tempo, sobre a convivência com doenças mentais, um blog que descobri há pouco e que  podem gostar: To My Brother, With Love. Há ainda dois filmes, O Lado Bom Da Vida e Uma Mente Brilhante. Tem também Rain Man e Código Para O Inferno (Mercury Rising), se bem que neste a temática está presente, mas não chega a ser o foco do enredo. Por fim, tem o livro Nunca Lhe Prometi Um Jardim De Rosas, de Hannah Green, romance que traz uma abordagem sólida sobre esquizofrenia. Ah, e temos ainda o filme No Limite Do Silêncio que é, na verdade, um suspense psicológico, mas vale.

Isso é tudo por hoje. Até!

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