Chovendo por dentro

por M. S. Costa

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As gotas de chuva desciam suavemente até o asfalto rígido e rochoso. E as via em abundância nos dias chuvosos de minhas memórias. Não eram raros. Acho que mesmo quando o sol estava lá em cima brilhando, podia ainda imaginar pingos de chuva embalados por algum infortúnio irrelevante ou talvez relevante. Não me entenda mal, não assumia que o meu pesar era o pior que alguém já havia sentido ou suportado.

Quando olhava para trás, chovia em eventos passados e, quando considerava o futuro, ainda pensava nisto como uma estação chuvosa que deixava de ser temporária, por algum motivo. Alguns chamariam o primeiro acontecimento de Depressão, alguns nomeariam o segundo Ansiedade. Eu os chamo de Situação e é ela que gostaria de descrever em parte: quanto à depressão, ela é como um câncer que vai e volta.

Tomava por pouco tempo um medicamento e era, então, uma criatura eufórica que falava em demasia, um tanto irritante e que mal acompanhava seu próprio pensamento. Até descobrir outra droga, o Adepril, que apenas vinha acompanhada de uma sonolência e relaxamento. Quase nunca me drogo, no entanto. Quando o “cancro” vem, preciso dormir muito, porque é assim que resolvo as coisas por dentro, possivelmente nos sonhos. Acho que minha depressão Situação começou quando comecei a perder tudo. Isso é tudo muito subjetivo, mas digamos que perdi e, na letargia, perdi-me. (É preciso manter a subjetividade no texto, por razões obscuras.)

Fiz muitos planos e os coloquei em prática. Queria tirar o “cancro” de mim e me manter viva ou fazer tudo que pudesse fazer até que a doença voltasse ou até que eu morresse novamente. Do púlpito na igreja, alguém irá dizer que essa não é uma doença dos crentes e vou ter que perdoá-lo setenta vezes sete pela ignorância ou pela insulta de me chamar de incrédula. No trabalho, vão notar que ando instável, ou sonolenta, ou desatenta e, aos poucos, vou perdendo, perdendo. A depressão é, segundo a OMS, a doença que mais incapacita nos dias de hoje. Se me acho em uma espécie de lista negra, tendo também a lembrar que Lincoln, entrementes, não foi tão incapacitado por sua depressão. Ele foi até o fim.

Meu cabelo responde à umidade da chuva com tanto frizz quanto pode encontrar. Com o passar do tempo, aprendi a gostar da chuva. Veja bem, não gosto que meu cabelo pareça ruim e que esteja sempre sujeita a ser inadvertidamente lavada tanto pela água quanto pela chuva ácida. É o movimento que aprecio. Os pingos de chuva nunca estão parados enquanto os vejo cair nos caminhos e cidades feitos por pessoas.

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