Espelhos

por M. S. Costa

Eu tenho pelos. Não é algo que as pessoas vão dizendo, assim, ainda mais pra começo de conversa, mas que eu tenho, assim como muitas e muitas pessoas, eu tenho. Agora, eu gostaria de aproveitar a oportunidade para expor a minha consternação com relação aos espelhos, porque é um objeto que todo mundo tem em casa e é muito utilizado no dia-a-dia para que nós, ao olharmos para ele, avaliemos como vai a nossa imagem.

Tem espelhos grandes, médios e pequenos. Os grandes, eles não eram permitidos quando eu morava no navio, então, todo mundo tinha que se ver nos pequenos e é impressionante o quanto as pessoas podem esforçar-se em subir em cadeiras ou quiçá escalar escrivaninhas para conseguir averiguar como está a sua figura num todo, já que o objeto estava suspenso no banheiro, acima da pia. Eu penso que, ao contrário do que ouvi dizer, as pessoas não ficam se olhando no espelho para se admirar feito um Narciso, eu acho que elas ficam se perguntando se está bom o suficiente o que elas veem. E algumas até evitam o objeto para não ter que se perguntar isso.

No Turismo, chamam de tempo morto esse que a gente gasta, por exemplo, no trânsito, fazendo algo por obrigação para chegar a algum fim (tipo aquela hora que a pessoa fica esperando aquele ônibus demorado para atingir aquela meta de chegar a casa ou ao local de trabalho, etc). Eu acho que se gasta muito tempo morto diante de espelhos procurando celulites, gordurinhas, músculos, espinhas, imperfeições em geral. Assim como é um desperdício de tempo procurar sistematicamente absorver toda a tendência da moda e dos tratamentos cotidianos de beleza para mudar alguma coisa diante de espelhos, sejam eles os que a gente coloca ali no quarto ou os olhos das pessoas, da sociedade. Daí, o sujeito vem e diz “mas a pessoa tem que mudar sua aparência para si mesma, não para a outra pessoa e assim que é bom”. Concordo plenamente. Mas que uma busca sistemática por isso me parece estar mais para baixa autoestima gritada, parece sim.

E eu estava pensando aqui com meus botões… E se quebrar um espelho não trouxesse sete anos de azar, ao contrário do que diz a lenda? Por que essa lenda, afinal de contas? Então, fui procurar no Sr. Google e coloquei lá exatamente assim, com frases relevantes cortadas ao meio: “por que existe a lenda sete anos quebrar espelho”. Como resposta, surgiu, logo assim estampada pra todo mundo ver, uma sequência de resultados de pesquisa que não chamavam a coisa toda de lenda, mas sim de superstição. Uma lenda, segundo o dicionário Michaelis, é uma história que pode passar por gerações, “mas cuja autenticidade não se pode provar”. Já uma superstição é uma “crença errônea” qualquer.

Clara a diferença entre os termos e estabelecida a lenda superstição do espelho, encontrei uma matéria que explicava o seu surgimento e, como nenhuma origem é desprovida de história, o fato é que se acreditava, na antiga Grécia, que a imagem do espelho refletia a própria pessoa e que ele quebrado representaria sua própria destruição, no que os romanos disseram “não, isso só vai lhe trazer sete anos de azar”. Mais à frente, a superstição foi empregada para os propósitos de quase sempre, ao longo da história da humanidade: subjugar: para que os trabalhadores não quebrassem os espelhos caros de seus patrões, era espalhado por aí que tal ato dava azar.

Por fim, procurei seguir um pouco mais a linha de raciocínio a respeito desse pedaço de vidro tão presente na sociedade e deparei-me com algumas questões altamente relevantes que gostaria de compartilhar com você que está aí do outro lado da tela lendo isto:

Por que não desconstruir a nossa imagem nesses espelhos onde a gente aprendeu a enxergar apenas o que todo mundo vê, quebrando-os, de vez em quando?

Por que não comer aquela sobremesa e sair do regime de segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo?

Por que não sair correndo na rua pra praticar aquele exerciciozinho do dia, apesar de a pessoa dizer que você vai sumir se fizer isso? (Eu já ouvi isso em algum lugar, alguma vez, numa dada hora.)

Por que não? Por quê?

Vamos quebrar tudo!

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