A ceia

por M. S. Costa

Em cima da cerca de madeira, há um filhote de macaco a se equilibrar sem grande esforço. Ouvem-se uns passos sobre a folhagem seca que cobre o campo aberto, onde se encontra um grupo de homens fardados a comemorar sua formatura; são soldados. Os passos são de mais uma pessoa fardada, uma mulher que se aproxima dos comensais que dividem duas mesas postas juntas, em que se serve o banquete. Todos prestam continência à recém-chegada e continuam a comer pedaços de galinha com as mãos e tomar suco, cerveja, fazendo-os logo após a continência, como que sincronizados. Ouve-se o burburinho da fala difusa dos presentes. A mulher senta-se na única cadeira disponível ao lado de um dos homens que a aponta para que venha sentar-se. Ela os olha, observa-os em silêncio por um momento, depois começa a cantar baixo. Ouve-se o burburinho mais baixo, mais baixo, mais baixo ainda…

É noite e jazem em uma quase-penumbra entrecortada pelos diversos feixes de luz provenientes das pequenas luminárias que se encontram por todo o caminho. A mulher forma uma figura delicada contrastando com os demais. Parece destemida e não se retrai. Ela diz ser aquele o maior de todos os banquetes. Aproximando-nos pouco a pouco dela até a íris castanha brilhante, vê-se refletida a menina – hoje a mulher fardada Celina – que come do que planta na fazenda onde vive com a mãe, esta que a esconde do homem fardado que se aproxima de sua casa.

“Passion fruit”, diz um dos convidados a tomar o suco da fruta da paixão; em português: o maracujá. De volta à comemoração, Celina parece acordar, distar-se como nós de suas lembranças. Ela sorri.

11/03/14

Anúncios