O telefone tocou

por M. S. Costa

O telefone tocou. Na garagem, ela disse que o entulho já estava criando bicho, que já era hora de distribuir os objetos antigos do lugar que estava parecendo depósito. O cachorro levantava as orelhas, olhava até com atenção. “Parece gente”, ela disse. E caminhou, com seus planos de destruir velharias, do jardim até a sala de estar.

Ela queria fazer um a um tudo o que sempre quis, mas que foi adiando no [de]correr da vida. Gritar era uma dessas coisas.

_ Alô.

Silêncio do outro lado. Silêncio do lado dela também, porque afinal de contas o silêncio era parte da vida também.

“Mas o quê?”, pensou. “Sou uma senhora de respeito e gosto de ser levada a sério. Ou você trata de dizer alguma coisa ou vou colocar em prática meus planos de gritar.” Mas não. Ela não o disse.

Desligou o telefone. Foi até a padaria. Comprou uma, duas, três chipas gregas. Jantou-as. E foi dormir. Aquele era um daqueles dias em que não havia muito que se pudesse fazer a não ser o óbvio, cuidar do que estivesse mais próximo, comer e dormir.

_ Não, não, não!!!

Ops. Ela engoliu em seco. Esqueceu-se de fechar o portão, o cachorro saiu e ficou a perambular na rua. Ela vestiu um roupão por cima da camisola, foi até a esquina e chamou “Bolinha, Bolinha, cadê você?” Nem sinal do Bolinha.

_ Oi, seu Antonino. Por gentileza, viu o Bolinha?

_ Serve esse?

Seu Antonino não era bem quisto por Bolinha, que vinha latindo à beça em seu colo enquanto ele o entregava à dona – “essa maluca de roupão”, pensou o vizinho.

_ Oh, muito obrigada.

_ Pois não é muito de nada, não senhora. Eu estava aqui observando, porque eu não somente sento no meu banquinho pra tomar a minha cerveja, como também sei muito bem o que passa e percebi que você deixou o portão aberto! Por isso, coloquei o cachorro ali na área de serviço. Ficou bem guardado. Mas que não se repita!

_ Seu Antonino, obrigada. E boa noite.

Passos pesados tinha a dona Luci [porque o nome dela era esse] quando se dirigiu a seus aposentos, enquanto o telefone tocava novamente.

Ela atendeu.

Silêncio.

Ela desligou.

Tocou de novo.

_ Alô!!!

_ Oi.

_ Era você agora há pouco?

_ Sim.

_ Mas o que é que… Não faça mais isso!

_ Eu só pensei que você pudesse saber que era eu.

_ Por gentileza, vê se fala comigo. O que você quer?

_ Uma explicação.

_ Ouça, desculpe. Eu não viro lobimulher depois da meia-noite. Eu não sou vampira, apesar dos dentes afiados. E eu ainda nem matei o meu vizinho.

_ Não, eu não esperava que fosse explicar tudo isso.

_ Eu só achava que você ficava melhor sem mim… Espere um minuto, o cachorro está detonando a árvore artificial de natal.

Já era uma pequena árvore mal montada, com peças a cair, até o Bolinha desmontá-la por completo.

_ É apenas uma árvore de plástico – ele disse.

_ Mas é um bom motivo pra fugir. Afinal, você disse explicação e se tem algo de que me esquive é isso. Não à toa vivo sozinha.

Toca a campainha.

_ É a campainha, depois a gente se fala de novo, tá bem?

Ou não tão depois assim.

_ Você?

_ A campainha, um bom motivo pra você fugir.

Ele desligou o aparelho celular.

Hesitação. Excitação.

Dizem as boas línguas que era bem provável que ele não ficasse melhor sem ela. Mas, schiii, não conta pra dona Luci que é segredo. : )

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