O pescador

por M. S. Costa

O pescador ruma à costa para encontrar o Porto, o comércio e a comunidade. Lá, negociam-se meios de sobrevivência.*
Ele quase nunca foge. Quando o faz é para encontrar outras águas, longínquas, fora donde já conhece tudo estar em falta, nas quais quiçá possa encontrar mais peixes, o cardume a ser vendido mais tarde**- mais tarde na vida em troca do sustento e da realização das grandes aspirações das latinhas de sardinha.
Quando o tempo é de voltar para a costa, por vezes, uma nuvem de humores do cansaço é tão espessa que sua cabeça, ele diz, sua cabeça “transforma-se em bola de chumbo”, que envia ao resto de seu corpo uma mensagem de raiva – da raiva que se sente quando se está cansado, sozinho e tentando sobreviver sem resquício da luz guia no longo caminho que faz a noite anuviada, sem lua nem estrela bem disponíveis, assim à vista.
Aqueles humores vão embora devagarinho quando o calor das águas lembra-lhe da terna perspicácia das muitas e muitas substâncias das coisas ao redor de si. Daí, ele faz uma oração e, com braços cansados, continua remando aos braços da costa.
Tão terna é a água e lá vai a canoa, mas ao Porto retorna, “pois”, ele diz, “nenhum homem foi feito para viver toda uma vida remando nas ondas infinitas dos rios.”

* Também pelas ações primitivas de nossos companheiros ancestrais isso era feito, mas de modo distinto, não? Vejamos…
** Quem sabe?

………………………………………………………………………………………………………………………………………15.12.2011
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