A correspondência de Rosa

por M. S. Costa

Emito o foto-cartão, certa de que a imagem não vale mais que mil palavras e, no intento de que te informes sobre como seguem as coisas por estas bandas, prego-lhe os post scriptum com tachinhas.

Amor,

                                      Rosa.

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P.S.: não guarde a foto debaixo do travesseiro. Quando voltares a ti e tiveres de te lembrar dos lençóis comprados com o esmero que tem os companheiros dedicados, procure-a. Ou não.

P.S. 2: chamam-se Palmeiras as magrelas altas. Lia perguntou quem as plantou e eu pensei em dizer: “não sei, talvez as tartarugas ninjas“. Mas árvores ser-lhes-iam muito dispendiosas e desenhos animados não plantam coisas nos jardins.

P.S. 3: mamãe manda-lhe beijos.

P.S. 4: “Valentim” é um filme argentino que você tem que ver.

P.S. 5: Descobri coisas.

Com o correr adoidado dos anos, aprendi que, às vezes, a gente não fixa raízes muito profundas, porque depois fica mais difícil ir embora.

A saudade, às vezes, é um arrepio e um palpitar acelerado de coração, com cinco ursos polares rugindo dentro e uma voz acalentadora que reconheço como minha em boas lembranças com amigos, a dizer, como que em imagem sonora: “tudo bem. Agora, você e eu podemos ficar aqui. Não temos de ir embora.”

Gosto do barulho que a água faz no choque com o prato na pia. E dizem que lavar a louça equivale a certa dose de saudável exercício físico. Mesmo assim, é uma coisa chata de se fazer.

Sexo é supervalorizado. Sexualidade interessa mais.

Não dávamos ênfase à nudez de Adão e Eva quando contávamos a história bíblica. Encobríamos as partes biologicamente responsáveis pela reprodução (por Caim e Abel e pela proliferação de pessoas). Você, provavelmente, lembra-se de quando a discutíamos, alternando entre risos e seriedade contemplativa. O primeiro homem e a primeira mulher vivem nus até que comem da árvore que dá conhecimento do bem e do mal e se vêem maus nus, decidindo, então, serem antes tapados que desnudos.

P.S. 6: conte carneirinhos. Não, não conte. Jamais. Espere que venha o sono sem eles, bem acordado. O sono é um prazer cheio de aparente nada.

P.S. 7: cuide-se bem. Tome banho, penteie o cabelo. Colha as goiabas, os limões e as acerolas – cuide também deles.

P.S. 8: amanhã, logo cedo, vou bater no liquidificador mamão e leite pra cuidar de mim. Depois, vou à varanda ouvir aquele mensageiro do vento que também cuida de mim.

P.S. 9: foi feita uma canção para alguém viver mais: “faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais” (Pato Fu).

P.S. 10: corra pelos campos descalço. Fique bem e não se esqueça de mim.

……………………………………………………………………………………………………………………………………………….13.02.2011
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