Gusam visita os lagos

por M. S. Costa

Havia um círculo territorial no mundo, onde as pequenas criaturas Pertencentes não tinham outro modo de se expor que não com garras de aspecto duvidoso e maléfico. Elas pertenciam ao lago do norte e aos sapos, trabalhando para nada mais que lago e sapos e, se tentassem o que quer que fosse era para o bem das águas e do coaxar de seus companheiros. Lá, não havia outro assunto – fosse o tipo que fosse – que despertasse seus interesses como aquele atinente a esse peculiar ser humano que vinha e visitava tal cenário vez ou outra e que atendia pelo nome Gusam, o habitante de onde ninguém que não ele mesmo conhecia. Bem, após tempos de contínuas exposições de garras, aquelas pequenas criaturas silenciosamente voltaram a um ponto onde não havia necessidade de exposições ou não havia pedidos para tanto por ora, pois Gusam chegava e, a todo tempo, lembrava às criaturas do lago que o momento era de guerra e guerra requer reverência silente e atos curiosos em direção à luta.

Quando na formação do lago, o verbo, o princípio e o gim eram tão certos quanto podiam ser àqueles que tivessem olhos, ouvidos, narizes, antenas, garras e mesmo mãos para captar mensagens do Universo e bem processá-las posteriormente. Dada esta quase exatidão quanto ao que se conhecia sobre a origem de tudo, os Candeeiros Clarificadores da Fonte de Tudo eram desnecessários, pois a luz estava tão impregnada na maioria das criaturas que nenhuma tecnologia teria suprido melhor a existência e, quanto a isso, mesmo os sapos coaxavam em tom de Adágio em G menor, juntos soando como um: “somos reais. Podemos sentir isso.” E os Pertencentes faziam um adendo: “haja gim! Haja gim para degustação!”

No ideário de Gusam, a realidade era como um must do começo ao fim, pois pensava depender disso a sua sobrevivência no planeta. Ele confiava em sua imaginação, seus jogos mentais com imagens, sim, mas também tentava, por meio de experimentos na vida cotidiana, estabelecer relações daquela com uma possível realidade, como a discernir hipóteses de fatos, algo nesta ordem. Tinha o aspecto de um monge impaciente, cujas preocupações sobre o mundo tornaram-no tão responsável que a placidez, possivelmente uma característica peculiar da imagem de monastério, não tinha espaço o bastante na figura toda de si.

Desta vez, chuvas torrenciais vinham atingindo os lagos do sul, o que teria afetado os sapos sulistas de tal modo que se fizeram raivosos com Deus. E gritaram, e proferiram palavras de baixo calão, e instaram proteção bem alto, tão alto que o silêncio de guerra urgiu aparecer. Oh, eles queriam os lagos do norte tanto que decidiram chamar Gusam, porque não era justo que chovesse tanto no sul e que tivessem de fixar-se no sul. Não! Queriam o norte. “No norte, a água é mais clara, os céus são mais lindos e mesmo a mão de deus é mais benevolente”, dizia o sulista Serjopes. Por fim, houve guerra. Os rumores e sangue de tudo isso foram captados por uma poetisa do Oeste, uma moça de cabelos cacheados e longos, detentora do sorriso atenuante e pacificador dos que temem anqui-inimigos imaginários com muita elegância:

Os Pertencentes esticaram-se e mostraram suas garras pontiagudas que bem serviam c
omo espadas, os sapos envenenaram os cães gigantes do sul, os sulistas disseram algo sobre estarem cansados, alguns nortistas clamaram que tudo aquilo era desnecessário, mas que não tinham intenção de mover-se com resignação e certa alegria para fixar residência no sul, de qualquer forma. Tinham também as formigas lutadoras de sumô, que se punham constantemente em movimentos típicos contra os sulistas, contra os nortistas, contra o ar, fazendo disso algo tão corrente que, mais tarde, quando findou a guerra, continuaram lutando, atacando, defendendo-se e tacando para fora do ringue improvisado alguns seres, antes mesmo que houvesse ataque destes inimigos quiçá tão cruéis quanto as borboletas do Amazonas. Ah, todas as criaturas demandavam uma parte na Terra, então ou morriam e iam para o além, ou ficavam e lutavam por algum punhado de terra. Algumas até mesmo plantavam alecrim em seus jardins na esperança de que sua raiz refletisse, de fato, que tanto grandes quanto pequenas criaturas estavam vivas, porque, sim, se as plantas podiam ser fixadas na terra tanto elas quanto quem as plantava estariam vivas, por sinal. Ademais, ninguém quer vislumbrar o pedaço de terra ao qual pertence em ruínas e assim pensavam os sulistas, pois mesmo seus afamados lírios haviam sido varridos do sul pelas tempestades.

Foi um Pertencente que eclodiu da loja de estampas de sapo Roger com a aparente      primeira e última ideia para resolver o grande problema das discussões intermináveis sobre territórios. Sua Alteza, Príncipe Pertencente Kilo, disse: “ei, que bagunça. Vêem aquela grande cueca ali? Pois bem. Ela é meio de transporte proibido de dólares. Por ali, já passaram inúmeras cédulas americanas durante um dos inúmeros escândalos políticos da história de determinado país. Agora, sua grande utilidade resume-se a servir de cortinado para a casa da viúva-negra que não se conteve apenas com sua teia. Vamos usá-la de algum modo.”

Os sulistas acercaram-se como que recatados, porém curiosos, daquela cueca e pensaram poder servir como boa substituta para os lírios e que, afinal, era mais resistente, e elegante, e bem costurada, e… bem, hipnotizados, os sulistas sucumbiram ao Tratado da Cueca. O rei do lago do sul agarrou a cueca do norte e disse: “hasta la vista, baby”, como modo de mencionar um antigo filme, visto numa das casas de tijolos de algum humano morador das redondezas do lago do sul, na época em que a tempestade tornou quase inevitável que os sapos surgissem dentro dos lares dos homens.

Gusam podia apenas ver todos os acontecimentos, possuindo um comentário final antes de partir para seu refúgio conhecido apenas por ele, como previamente mencionado: “Isso tudo mostra o que está no meio. Uma luta entre partes pelo que é íntimo, um prelúdio ao infortúnio, um grito de louvor ao que não é o bastante.” Pensou: “nunca o bastante.” Ele, então, partiu não deixando pegadas atrás de si. (Dizem que aprendera a flutuar com um antigo mágico de botas furadas.) Era uma dessas almas que voltavam quando não lhe pediam e partiam num murmúrio resmungão da verdade: “estou cansado de lutar. Mas estou aqui.”

O casal de enamorados da mata do norte pouco sabia de tudo isso que a História ia contando. Mal criam nos noticiários. Costumavam apartar brigas na vizinhança até que um dia decidiram por apartar-se um tanto dela e viver uma vida que os ortodoxos legistas tinham por errante e repleta de libertinagem, numa choupana a5 quilômetrosda cidade, onde compravam mantimentos regularmente com o que ainda lhes restava de botões de ouro. Tinham, no entanto, uma ideia que se mostrava persistente, a de que deviam cantar “The lion sleeps tonight” enquanto recebiam sinais de conflitos decisivos nos lagos, estando bem cientes de que a cueca do Tradado era, de fato, a que tinha caído da mala quando viajaram os5 quilômetrosem direção à choupana.* Tão distraídos e ingratos ao ciclo natural do mundo que, afinal, ainda girava, cantavam e tinham a audácia de dançar em movimentos que lembrariam o ciclo de alguma coisa afinal, como em pecaminoso entusiasmo: auí mauê, auí mauê, auí mauê, auí mauê…

* Não espanta terem feito da ideia um ofício quando a guerra acabara, cantando e dançando em vários povoados, em festivais de inverno, verão, outono e primavera, acumulando botões de ouro o suficiente para a sua subsistência.

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