Era uma vez, fantasmas de jardim…

por M. S. Costa

Há muito se tem que é perigoso nomear os invisíveis. Sua invisibilidade pode não mais existir ou transformar-se no que quer que você os chame. Fantasmas – que também são invisíveis – são viajantes que galopam a cavalos de ferro.

O último fantasma que conheci atende pelo nome Amor. Os clamores de quem o nomeia têm suas raízes na mais curiosa e categórica gente. Assusta o que ouço sobre ele. Dizem que Amor é algo sobre machucar e machucar-se. Reflexivo assim (também). Dizem que, dentre suas características, há uma que diz respeito à certa garota chamada Pocahontas ou àquela outra que atende por Cinderela. (Ele se caracterizaria por belas moças.) Certa vez, cri que era um fantasma que tinha sua história contada por um ancião que não podia ouvir. Os anos tinham-lhe ensinado como ser surdo, protegendo-o contra a ação natural de ouvir demais. (Assim tinha ele ouvido na vida. Por demais.) Anedotas ele fornecia. Era supostamente um sábio, aquele homem. Mas eu nunca sei que tipo de sabedoria hão de apregoar os donos das palavras ou que requerimento será por eles expresso amanhã ou depois de amanhã. (Talvez sabedoria seja sabedoria aqui e em qualquer lugar.) Talvez ele, surdo pelo hábito como só ele, podia contar uma história sobre a sabedoria. Ele, Antoniano, o velho homem sobre quem falamos.

Conheci, outrora, um fantasma e tomo posse dele nas mangas das camisetas frouxas que vou vestindo dia-a-dia feito poeira e cor. Amor, aquele sobre quem Antoniano possivelmente versaria. O último dos fantasmas, digo. O último, eu disse há alguns minutos.

Eu costumava perambular com um fantasma chamado Morte. Morte era um ermitão cheio de vida, quem, por via aérea, provavelmente migrou de um desses cenários sombrios de Edgar Poe ao meu tipo deserto de vida. Eu gostava de dizer que Morte era sabichão. Ele era mórbido e, bem, a morte em si para mim e, sendo a morte em si, tinha uma óbvia familiaridade com o assunto que me era tabu e o qual eu temia mais que tudo: morrer.

Recentemente, tive prosa com Informação, um fantasma de séculos que encontrei por ocasião da cerimônia de batismo de uma garotinha cujo nome era Sara Não Sei, da família Não Sei, proveniente de uma geração de pessoas que morriam tendo conhecimento nenhum sobre sua inominável doença (de fato, não havia médico que arriscasse procurar explicações para aquele tipo de invisibilidade mórbida). No entanto, o Sr. Informação mesmo era muito prático na resolução das questões humanas, então disse ele à família Não Sei: “é uma questão de substâncias químicas de pura languidez, negativadas pelo maior dos defeitos da carne, às quais falta toda a graça e que impregnaram seus genes. Agora, será necessário um remédio de nome D. T. A. C. para que sejam sanados os corpos todos dessa gente.” Assim, essa foi a prescrição que a família Não Sei cooptou com grande aceitação por alguns anos, mas, ainda que todos ingerissem tal remédio, seguiam doentes, afetados por aquela mesma antiga e inominável enfermidade, embora D. T. A. C. tenha sido posteriormente desenvolvido pelos primos do Sr. Informação a tal ponto que se tornou um veneno altamente efetivo contra as recentes pragas que atacam as plantas lá das bandas do Noroeste. Bem, porque a vida continua e também avança o conhecimento, Sr. Informação sempre acompanha muitos povos hoje como dantes.

Agora, um fantasma que me parece enigma dos grandes é aquele de quem desconheço o nome. Não há palavras disponíveis. Eu as emprestaria se me aprouvesse no momento. Eu as roubaria, insistiria com a poeira do chão que se levantasse e formasse figuras com dicas, apontamentos, direções sobre o dito cujo. Mas não.

Ontem, um de meus irmãos sentou-se sobre a mesa da cozinha e gritou algo que eu não podia compreender, estando eu no quarto de repouso ouvindo rock japonês. Foi no pós-grito que me lembrei – tão logo quanto a esdrúxula associação permitiu – da família Não Sei e desse fantasma para o qual não encontro nomes registrados até os dias de hoje.

Deixei tudo exposto num pronunciamento, o qual deveria ser – um tanto que fosse – solene e que foi feito hoje, durante a revelação de Amigo Oculto numa festa da comunidade, oferecida como recordação de que aquele ano de 2009 estava chegando ao fim, o Natal estava quase dando as caras, enfim lembrança de que datas especiais são especiais no final do ano (ou não só então, lá pelas tantas):

“minha amiga secreta, a senhorita Tábita, tem afixada à porta de seu quarto as frases de Michael Ende: ‘Ou  entre, ou saia. Mas feche a porta, está ventando’. Dia desses, ela decidiu sair correndo do quarto, deixando a porta bater atrás de si enquanto dizia: ‘Mas será possível que ninguém vem me visitar?’ Eu agora reconheço que o fantasma sem nome visita-a com freqüência também. Ele não se apresenta e é quase um misantropo dos grandes. Essas visitas nos tornam semelhantes. A senhorita Tábita e eu.”

É o que sempre digo… Fantasmas – também invisíveis – são viajantes que galopam a cavalos de ferro.

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