A menina do vestíbulo

por M. S. Costa

…um macaco de pelúcia sobre uma estante, o único móvel do enorme vestíbulo. Quem se acerca do móvel, com passos rápidos e sapatos de bailarina, é uma menina que tem fartos cabelos presos, com dificuldade, pela presilha.

Senta-se a dois metros da estante. Três, talvez.

Tem um olhar fixo e tranqüilo. É dirigido ao macaco, que responde com o brilho das bolinhas de plástico lá de sua cavidade ocular de pano.

Eu que vejo, assim, a imagem da menina e do macaco, fico a me perguntar o que que se passa.

A menina, a estante, o macaco.

Cai uma folha de papel pequenina.

A menina movimenta-se.

Não sei, ao certo, de onde vem o papel e nem o sopro que o fez cair da estante ao chão.

Estende a mão para o papel. Levanta-o ao ar e imobiliza-o. Mão, papel, no ar.

O que observo são alguns raios de sol, que entram pelo teto transparente, trazendo a luz como plano de fundo ao par mão-papel, paralisado no ar.

Então, um sopro barulhento do vento do leste. Então, o barulho que vai tomando modos de voz.

A voz lê o rabisco do papel da menina-estátua:

O não haver encerra no não haver. Tal é a lógica humana.

Cai o papel, levemente, no assoalho.

Não entendo.

A menina olha, novamente, para o macaco do olhar plástico. Parece tranqüila.

Ela se levanta.

A voz não está mais no vestíbulo.

Passo a reação da vez a alguns tiques antigos. Faço algumas caretas.

Olha para mim.

Aquela que narra não pode ser vista, logicamente. Assusto-me tanto que os olhos arregalados parecem não caber no rosto.

Não suporto o que vejo. Fujo com os olhos grandes, pousando-os sobre a estante.

Ela se aproxima. Conta-me um segredo no pé do ouvido, que não tinha ficado grande.

Parte da história és.  

Tua fé tem por certo aquilo que não vês.

A menina passa a cantarolar. Saltita até a escadaria. Vira-se para mim. Em seu semblante, vejo um quê de satisfação:

Eu não te disse? Sempre estive aqui. Sempre estiveste aí.

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